Depois de tanto tempo, sinto como se ainda estivesse tropeçando nos meus próprios cadarços, usando o mesmo tênis desgastado de sempre, aquele que insiste em me lembrar que talvez este seja o meu destino.
Sempre que pensava sobre ser eu mesma e, por mais que isso muitas vezes me enchesse de orgulho, havia também uma tristeza silenciosa: a sensação de estar condenada a um sofrimento inevitável pelo simples fato de acreditar que poucas pessoas compreenderiam, de verdade, todos os átomos que me compõem.
Com o passar do tempo e das tantas coisas que aconteceram, percebi que o medo de ser quem sou acabou se transformando em proteção. E junto dele, nasceu outro medo: o de não conseguir mais ser eu.
Passei a temer que tudo se repetisse. Que os poucos fiapos de memórias boas que restavam se desgastassem diante de palavras que eu nunca deveria ter ouvido. Afinal, ouvi coisas que ninguém merece escutar. Tive que carregar acusações, como se todas as culpas do mundo coubessem em mim, quando, na verdade, o erro nunca tinha sido meu. Ouvi que as coisas boas existiam, mas que eu não as merecia. Eu era ingênua, eu sou ingênua.
E talvez tenha sido esse o medo que me acompanhou durante toda a vida, o medo de acreditar que as lembranças ruins eram uma espécie de destino, um castigo que eu merecia viver.
Depois de tudo, surgiu um medo ainda maior, aquele medo de não conseguir mais ser eu. O de desistir do amor e de todas as suas formas, porque aos poucos, passei a aceitar a ideia de que embora eu sempre tenha acreditado profundamente nesse sentimento, ele talvez nunca tivesse sido feito para mim.
Será possível aceitar que um sonho tão simples, tão comum para tantas pessoas ao meu redor, não exista para mim?
Às vezes penso que estou me perdendo, mas então as lágrimas chegam como um cometa atravessando os meus olhos e me lembram que ainda sou eu. Ainda sinto. Ainda sinto muito o tempo todo. Como sempre. E eu só queria não sentir.
Eu queria não sentir nada. Queria descansar desse excesso de sentir, dessa forma intensa de existir, dessa dor de colapsar. Queria não pensar que tudo parece me empurrar para um destino que tenho medo até de imaginar.
Tenho medo de que tudo seja destino. Será esse o meu destino afinal?
De que a vida seja apenas uma tempestade constante, me arrastando sempre para a beira de um precipício, enquanto eu tento com as mãos vazias, aprender a não me afogar?


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